sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O assassínio de Cardoso Pires


Tivemos de reinventar um final alternativo para a Balada da Praia dos Cães. Estou agora a ler o livro para ver se consegui manter o registo. Mas não há dúvida, sem arrogância nem falsa modéstia: o mestre Cardoso Pires é sempre o mestre. Não se lhe chega aos pés de qualquer maneira.

Aqui vai: (só espero não ter assassinado o texto do Cardoso Pires)

«Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro a passo seguro atrás dos outros algemados. O policial, indeciso entre os sublinhados de Mena, trai-se a si mesmo. Vai atrás dela e pega-lhe não na mão, mas na algema da mão esquerda, bem da sua preferência. Salazar, por detrás, segreda-lhe: «os sublinhados do sistema, os sublinhados da Situação. Resolve a tua Situação com Mena». O policial arde por Mena, com vontade de arder em auto-de-fé com ela, entre lençóis de fogo. Começa a imaginar-se no chão sujo da cela, fria, a escorrer delações pelas paredes.

Depois deste pensamento não hesita. «Espere, Mena». Mena vira-se para trás e cospe-lhe eroticamente no olho. «Sim, fui eu quem pôs os sublinhados no livro do Cabo. E sabe que mais, meu palerma? Gostei».É desta. Aguarda, ansioso, que os outros algemados atravessem e puxa-a pelas algemas, em jeito de tango argentino. Em busca da chave da cela. Arrasta-a nesse movimento de circo, ele, o trapezista que a vai deixar cair, ela, a trapezista que sabe que por baixo não há rede. Chegam à cela. Ele larga-lhe a algema, senta-se no chão de pernas abertas. «Atire-se de encontro à parede». Ela obedece. «Agora, esfregue-se nela de alto a baixo». Ela obedece, antevendo um desfecho quente. Insinua-se à parede, de lado, percorre-a com cada poro do corpo, sem olhar uma única vez para o policial. «Agora vire-se para mim». Ela obedece, de olhos fechados. «Dispa-se». Ela despe-se, sempre de olhos fechados. O policial, cada vez mais in and out, sem output visível. Saca da smith e ela bem o sabe. Abre os olhos.O policial levanta-se, resoluto e impoluto, e caminha para ela, lentamente. Não lhe toca uma única vez. «Vou sublinhar-lhe a testa, minha cabra desejável. Mostre lá o lápis azul com que pinta os olhos…não era isto que dizia?». Ela: «Mostre-me você o lápis vermelho. Corrija-me o trabalho de casa». A esta provocação ele não resistiu: vai enfiar-lhe um tiro na testa, para terminar a Situação. Happy end: roleta russa. Grande jogo. O jogo mais erótico de sempre: a excitação do entre a vida e a morte num breve segundo de disparar de gatilho. Mena agora já não cheira a vontade de sexo, cheira a vontade de mijar, de trepar pelas paredes. Segundo tiro: nada. Andam neste jogo durante cinco minutos. Mena escorrega parede abaixo e o policial finalmente abre mão do jogo. Empate. “E manda-a seguir com um empurrão. Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro, mas agora a passo inseguro atrás dos outros algemados.” «Foda-se, cobarde!», pensa o policial.»
*A imagem foi retirada de jornal.valeparaibano.com.br, a 16/10/2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vários...


Ontem aprendemos mais algumas coisas sobre o género descritivo. A professora, como sempre, com um ar cândido de quem adora o que está a fazer, teve a capacidade de continuar a motivar-nos para a escrita, (d) escrita e sempre em reinvenção.

O resultado da sessão de ontem: escolhi o exercício de descrever um lugar aberto, partindo de um ponto de atenção. Depois, sobre o mesmo lugar, uma descrição com esse ponto de atenção desfocalizado:

Hall do prédio

Maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona. Não se deixa engolir por parva à primeira, nem à segunda, nem à última. Está postada na escada, à espera de que alguém lhe preste alguma atenção. Passa o vizinho do terceiro esquerdo: «sempre a mesma coisa, as pessoas passam e ninguém a vê». Passa a criança, demora um olhar guloso sobre ela. A mãe diz-lhe: «deixa-a estar onde está, não se sabe por onde ou com quem ela andou. Entra para o elevador!». Finalmente, passa displiscentemente a D.Luzia, a senhora da limpeza: «mas que chatice! Maldito seja quem te largou na escada da vida!». Ela deixou-se estar, impávida e serena. D.Luzia, sempre com aquela cara de quem está farta das escadas daquele maldito nº 12, fecha a jornada de trabalho. Varre a maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona pastilha elástica apaixonadamente colada ao cantinho do vão do rés-do-chão C.

Este prédio tem várias plantas, dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. Passa o vizinho do terceiro esquerdo, que demora um olhar guloso sobre a filha do vizinho do quinto, agora com dezoito anos. A vizinha do quinto, agora com dezoito anos, desce a escada em direcção à porta já velha do prédio, com o cuidado de se roçar inocentemente no filho motoqueiro do vizinho do sétimo. O filho motoqueiro do vizinho do sétimo abre a porta do prédio ao vizinho do terceiro esquerdo, um velhote reformado, cuja mulher passa a vida a regar as várias plantas dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. A porta do elevador, com aqueles botões de camisa old-fashioned, abre-se: sai o miúdo que passa a vida a apanhar as pastilhas elásticas coladas no vão da escada e com ele, a mãe, amante do vizinho do sétimo.

O bar-quiosque

É daqueles objectos mais eróticos que se possa imaginar. Redonda, mexe-se bem se for bem «mexida». Tem uma forma, no mínimo, singular: dependendo do ponto de vista, é vertical e termina de forma oval, abrindo-se generosamente ao mundo; novamente, dependendo da posição, deleita-se na horizontal, lânguida, inerte, um verdadeiro pote de mel. Quando votada ao desprezo, ainda assim se deixa estar, à espera de um toque, de uma breve mas suave carícia de dedos – o polegar e o indicador. Atenção: finalmente alguém pega nela, como que ao colo, agarra-a entre a palma da mão e os dedos, e coloca-a delicadamente entre o polegar e o indicador. Mexe o café, pousa-a. Ela é a famosa colher de café, que namora augúrios de pressa entre o açúcar e a bica cheia acabada de tirar no bar-quiosque onde acabo de me sentar.

O bar-quiosque em frente ao meu prédio cheira a gente com pressa de ir apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, que chega à estação de comboios às sete e quarenta e um, que chega a Lisboa às oito e vinte e dois. Este bar-quiosque, em forma de moinho de vento, é um oásis ao fim-de-semana. Assiste a jogos de futebol, a crianças que o fustigam com desgraçadas voltas que o entontecem. O bar-quiosque é de lona, com janelas de plástico, que me deixam ver a velhota que serve, com a moleza de quem já não tem pressa de apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, bicas e mais bicas. A pouca e despreocupada destreza da velhota fazem-na deixar cair, constantemente, as colheres de café das pequenas chávenas Sical.

A livraria

Circulando pelas poucas estantes da livraria, a princípio fiquei enojada. É que a dona da livraria é muito, muito asséptica e muito me espantou que tal visitante pudesse partilhar comigo os mesmos gostos literários. Com umas antenas bem esticadas, a andarem para cima e para baixo, estava tão admirada quanto eu. Afinal, verdade seja dita, chegara primeiro, de malas aviadas e tinha direito a ler Eça de Queirós, que julgava eu?!A barata, cor-de-mel (que mania de implicar com a cor nojenta das pobres!), estava sentada entre as publicações Europa-América, na terceira estante a contar da esquerda, e a estante de autores portugueses de leitura obrigatória, quarta estante a contar da direita.

De Novembro a Novembro, a livraria parece uma árvore de folha caduca. Com muitos galhos, mas vazia de gente. Para mim, está cheia daqueles livros que não interessam, daqueles que interessam pouco, daqueles que pouco ou nada interessam e ainda daqueles que releio constantemente (se calhar também não interessam). As estantes têm imperceptíveis pontinhos pretos, sobre os quais muito me intriga a proveniência. A dona da livraria é tão bonita (ai, mas coitada, tem um filho que se meteu com uma moça que não interessa, coitadinho!), mas parece tão só nessa livraria. Se calhar, nem a vida dela interessa, apenas o prazer mórbido de esborrachar as baratas que insistem em alojar-se nas poucas estantes da livraria.
* A imagem foi retirada de coisasquegosto.files.wordpress.com, a 07-10-2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Lisboa sob o olhar de Mariza...


Ontem iniciámos um curso de escrita criativa, dado por uma mestre que nos sabe motivar para a escrita. Estamos a aprender a descrever e assim vou (d) escrevendo o que Lisboa me inspira.

«Lisboa parou sob o olhar de Mariza

Mariza percorre um fado naquele que podia ser um molineiro do Tejo. De longe, esse fado segreda-lhe uma Lisboa que parou num clique de fotografia. Mariza não quer os detalhes – quer separar o que mais ninguém vê, observar, agrupar as imagens e cantar o impacto de uma cidade que se debruça narcisicamente sobre si mesma. Começa.
Agora, Lisboa cheira-lhe a um corpo molhado do Tejo, depois de uma beata largada no Terreiro do Paço. Sabe-lhe a uma sardinha crua, perdida de um qualquer caixote largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado. São duas da tarde. Mariza estaca ainda: dá início a um fado de Alfama, numa cidade que agora vê a preto e branco. Deu início ao canto do cisne. A cidade recua: o Terreiro do Paço e as suas arcadas estão de olhos pisados perante a chusma de gente que estacou sob o seu olhar. Pessanha chora pelas arcadas quem sabe de um violoncelo esquecido, mais à frente, na Rua dos Bacalhoeiros, que Mariza agora não vê mas sente. S.Jorge já só mostra os dentes enciumados dos picos góticos do Convento do Carmo, as agulhas que furam agora a cor de Lisboa que parece esfumar-se rio adentro. Lisboa afasta-se num grito de gaivota: gaivota em terra, tempestade no cais. Ela vê a tempestade aproximar-se em forma de gente, pequenina, cada vez mais pequena, cada vez mais magoada, em busca do molineiro do Tejo que agora se afasta. Mariza afasta-se da sua amante…é o Tejo que a rouba calmamente de Lisboa, a amante enfadada…a sua amante a preto e branco…que lhe sabe a sardinha crua, perdida de um qualquer caixote, largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado».

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

De regresso

As bonequices estão de volta. Depois de mais de um ano de ausência, o blog volta a estar activo.
Um abraço a todos os que estão no meu coração