terça-feira, 6 de outubro de 2009

Lisboa sob o olhar de Mariza...


Ontem iniciámos um curso de escrita criativa, dado por uma mestre que nos sabe motivar para a escrita. Estamos a aprender a descrever e assim vou (d) escrevendo o que Lisboa me inspira.

«Lisboa parou sob o olhar de Mariza

Mariza percorre um fado naquele que podia ser um molineiro do Tejo. De longe, esse fado segreda-lhe uma Lisboa que parou num clique de fotografia. Mariza não quer os detalhes – quer separar o que mais ninguém vê, observar, agrupar as imagens e cantar o impacto de uma cidade que se debruça narcisicamente sobre si mesma. Começa.
Agora, Lisboa cheira-lhe a um corpo molhado do Tejo, depois de uma beata largada no Terreiro do Paço. Sabe-lhe a uma sardinha crua, perdida de um qualquer caixote largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado. São duas da tarde. Mariza estaca ainda: dá início a um fado de Alfama, numa cidade que agora vê a preto e branco. Deu início ao canto do cisne. A cidade recua: o Terreiro do Paço e as suas arcadas estão de olhos pisados perante a chusma de gente que estacou sob o seu olhar. Pessanha chora pelas arcadas quem sabe de um violoncelo esquecido, mais à frente, na Rua dos Bacalhoeiros, que Mariza agora não vê mas sente. S.Jorge já só mostra os dentes enciumados dos picos góticos do Convento do Carmo, as agulhas que furam agora a cor de Lisboa que parece esfumar-se rio adentro. Lisboa afasta-se num grito de gaivota: gaivota em terra, tempestade no cais. Ela vê a tempestade aproximar-se em forma de gente, pequenina, cada vez mais pequena, cada vez mais magoada, em busca do molineiro do Tejo que agora se afasta. Mariza afasta-se da sua amante…é o Tejo que a rouba calmamente de Lisboa, a amante enfadada…a sua amante a preto e branco…que lhe sabe a sardinha crua, perdida de um qualquer caixote, largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado».

Sem comentários: